Para escolher uma gramínea forrageira apropriada para os equinos, é necessário conhecer algumas características desses animais. Nesse contexto, os equídeos realizam a preensão da planta utilizando o lábio superior, colocando o alimento entre os dentes incisivos, os quais, por sua vez, executam o corte, auxiliado pela movimentação da cabeça. Assim, estes animais têm maior aptidão ao corte mais baixo e intenso, condição em que as gramíneas forrageiras com crescimento estolonífero, em geral, são mais adaptadas.
Os capins estoloníferos apresentam estolão, um tipo de colmo aéreo e de crescimento paralelo à superfície do solo. Essa forma de crescimento mais prostrada ou rasteira faz com que muitos pontos de crescimento (meristemas apicais e gemas axilares) permaneçam próximos à superfície do solo. Essa característica é importante porque, mesmo após o pastejo intenso, que pode ser promovido pelos equinos, muitos pontos de crescimento podem remanescer intactos, favorecendo a perenidade e a rebrotação do pasto.
O porte mais baixo das gramíneas estoloníferas também favorece outro comportamento dos equinos: a realização corriqueira de corridas na pastagem. Adicionalmente, pelo fato de os cavalos apreenderem menor quantidade de forragem por bocado e terem menor taxa de ingestão de forragem, em comparação aos outros herbívoros, eles dedicam mais tempo ao pastejo. Todas essas características dos equinos geram maior impacto dos cascos dos animais sobre o pasto. Dessa forma, há maior risco de as plantas serem mais danificadas ou arrancadas do solo. Por isso, é comum se dizer que “o cavalo come com uma boca e quatro cascos”. Nessa condição, o uso de plantas que, além de estoloníferas, também sejam rizomatosas é apropriado. As plantas rizomatosas possuem rizoma, um tipo de colmo subterrâneo e, por isso, mais protegido dos danos mecânicos causados pelo pisoteio animal.
No caso de ocorrerem pisoteio mais concentrado em alguns pontos do piquete, como nos cantos ou próximo dos corredores de manejo, o solo pode ficar exposto. Nesse caso, para evitar possíveis problemas de erosão ou de aparecimento de plantas daninhas, é importante que a gramínea forrageira tenha alta capacidade de ocupar essas áreas, após um período adequado de descanso. Essa característica também é encontrada nas gramíneas estoloníferas, que colonizam eficientemente as novas áreas “abertas” na pastagem, via o crescimento dos estolões. Ademais, a presença de rizomas em algumas destas forrageiras também pode contribuir para o surgimento de novos brotos e para o reestabelecimento da cobertura vegetal nas áreas pisoteadas.
Dentre as gramíneas de crescimento estoloníferos recomendadas para os equinos, destacam as do gênero Cynodon, como os capins Tifton 85, Coastcross-1, Estrela-Africana, Jiggs e Vaquero. Outras opções de gramíneas forrageiras estoloníferas para os equinos são: Digitaria (Digitaria decumbens Stent) e a grama-batatais (Paspalum notatum Flüggé).
As gramíneas cespitosas (que formam touceiras), de crescimento ereto e com maior altura, também podem ser utilizadas para os equinos. Nessas plantas, os meristemas apicais estão localizados no estrato superior do pasto, sendo, portanto, mais susceptíveis de serem removidos durante o pastejo. Por isso, essas gramíneas não devem ser manejadas muito baixas, o que comprometeria sua persistência e sua produção de forragem. Por outro lado, para respeitar o comportamento dos equinos, é recomendado evitar o uso de gramíneas forrageiras com porte muito alto, pois estas constituiriam obstáculo às corridas destes animais. Ademais, algumas gramíneas forrageiras com porte mais alto podem ter lâminas foliares mais compridas e com bordas cortantes, o que aumenta o risco de causar lesões de difícil cicatrização na comissura labial. Por isso, novamente ressalta-se a importância da adoção do manejo do pastejo adequado para essas gramíneas, para evitar que essas plantas ultrapassem as alturas recomendadas.
Dentre as gramíneas forrageiras cespitosas e de crescimento ereto que podem ser utilizadas para o pastejo dos equinos, destacam-se as do gênero Panicum, como as cultivares Colonião, Mombaça, Tanzânia, Massai, Tamani, Quênia, Paredão e Zuri. Além destas, também podem ser usados o Capim-andropógon e o Capim-de-rhodes (Chloris gayana Kunth). Entretanto, vale salientar que existem muitos relatos de pecuaristas indicando morte de equinos consumindo cultivares de P. maximum, por isso, deve-se evitar a semeadura dessas plantas para pastos de equinos, principalmente Mombaça e massai. Mas, valae salientar que os relatos de morte ou cólicas estão associados a pastos de P. maximum mal manejados, com altura superior a indicada, com muita fibra, ou ainda e inicio de rebrotação. Portanto, pastos de P. maximum para equinos devem ser manejados estritamente na altura recomendada e ainda assim, com riscos.
A gramínea forrageira também deve ter boa aceitabilidade pelos equinos. Equinos têm geralmente maior preferência por gramíneas, em relação às leguminosas e outros tipos de vegetais. Vale destacar que a aceitabilidade de uma planta pelos animais em pastejo também é dependente da estrutura ou morfologia do pasto e também das características do animal, como experiência prévia de pastejo, jejum e variações individuais (Dumont, 1997).
Ainda com relação à aceitabilidade, é sabido que os equinos não consomem satisfatoriamente a maioria das espécies de Brachiaria utilizadas nas pastagens para a criação de bovinos (B. decumbens e B. brizantha), com exceção da B. humidicola, braquiária-do-brejo (B. arrecta) e capim-angola (B. mutica). Nesse sentido, é possível que muitos equinos sejam mantidos em pastagens com gramíneas forrageiras inadequadas à sua preferência, o que pode reduzir o consumo de pasto e o desempenho desses animais.
A gramínea forrageira a ser escolhida para a criação de equinos também não deve conter fatores antinutricionais. Dentre os fatores antinutricionais, o oxalato é um fator de grande preocupação, pois essa molécula se liga fortemente a cátions mono ou divalentes, como K+, Na+ e, principalmente, o Ca2+. Quando há deficiência de Ca na dieta, ocorre liberação de Ca dos ossos para o sangue. A reabsorção óssea ocorre primeiramente nos ossos longos e, depois, em ossos da face. Em seguida, a matriz óssea é substituída por tecido conjuntivo fibroso de forma irreversível, dando um aspecto abaulado à cabeça. Por isso, a enfermidade recebeu o nome popular de doença da “cara inchada” (Swartzman et al., 1978). Nesse contexto, salienta-se a importância da utilização de uma mistura mineral própria para atender as exigências dos equinos, não só em cálcio, mas também em outros minerais (Puoli Filho et al., 1999). Essa medida é relevante, sobretudo quando os animais são mantidos em pastagens com forrageiras com alto teor de oxalato, tais como as espécies Pennisetum clandestinum Hochst. ex Chiov., B. humidicola, Setaria anceps cv. Kazungula e Digitaria decumbens cv. Transvala.
Outro problema que tem acometido os equinos durante o período chuvoso em alguns estados do bioma amazônico é a cólica, associada ao consumo das cultivares Massai, Tanzânia e Mombaça de Panicum maximum. Essa é uma enfermidade aguda, caracterizada geralmente por distensão abdominal, perda de apetite, apatia, paralisia de intestinos, refluxo de conteúdo gástrico pelas narinas, rolamento e morte (Schons et al., 2012; Santos et al., 2007; Zilio et al., 2010).
Tem sido sugerido que a causa desse problema é alta concentração de carboidrato de fermentação rápida nas folhas dessas gramíneas durante o período chuvoso, quando o pasto está com altas taxas de rebrotação (Dias et al., 2014). Como consequência, ocorre rápida fermentação da forragem no intestino, com produção excessiva de gás, alterações da motilidade intestinal (Hoffman, 2009), modificação da microbiota intestinal e produção de ácido lático e endotoxinas (EMBRAPA, 2001), que levam à formação das lesões observadas no intestino e a intensa dilatação abdominal associada ao desconforto (Hoffman, 2009). Como medida preventiva para esse problema, recomenda-se evitar que os animais consumam exclusivamente essas referidas gramíneas forrageiras durante a época das chuvas.
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Profa Janaina Martuscello - Universidade Federal de São João del Rei
Referencias consultadas:
DIAS, G.B.G.; FALCÃO, C.M.; ARRUDA, F.P. et al. Surto de cólica por consumo de Panicum maximum (cv. Massai) em equinos no município de Poconé, Mato Grosso, Brasil. VII Encontro Nacional de Diagnóstico Veterinário e II Encontro Internacional de Sanidade de Animais de Produção (Endivet), Cuiabá, Mato Grosso, 2014.
Embrapa Gado de Corte. Capim-Massai (Panicum maximum cv. Massai): alternativa para diversificação de pastagens. Campo Grande: Embrapa Gado de Corte, 2001, 5p. (Embrapa Gado de Corte. Comunicado Técnico, 69).
HOFFMAN, R.M. Carbohydrate metabolism and metabolic disorders in horses. Revista Brasileira de Zootecnia. v. 38, supl. spe, p. 270-276, 2009.
SANTOS, C. E. P. et al. Variedades de Panicum como fator predisponente ao desenvolvimento de síndrome cólica em equídeos a campo. In: II Congresso de Medicina Veterinária no Mato Grosso do Sul e suas fronteiras (Campo Grande, MS, Brasil), 2007.
SCHONS, S.V.; LOPES, T.V.; MELO, T.L. et al. Intoxicações por plantas em ruminantes e equídeos na região central de Rondônia. Ciência Rural. v. 42, n. 7, p.1257-1263, 2012.
SWARTZMAN, M.S.; HINTZ, H.F.; SCHRYVER, H.F. Inhibition of calcium absorption in ponies fed diets containing oxalic acid. American Journal of Veterinary Research, Schaumburg, v.39, n.10, p.1621-1623, 1978.
