Nesta época do ano, boa parte das reformas, renovações ou implantações de novas pastagens já foram realizadas nas principais regiões do Brasil, exceção de algumas áreas do nordeste, onde isto se dá no meio do ano.

O início do desenvolvimento da pastagem é acompanhado do aparecimento das plantas daninhas de forma bastante agressiva. Principalmente tratando-se das espécies de folhas largas que tem seu desenvolvimento a partir de sementes, comparativamente mais acelerado em relação às gramíneas, que representam as principais espécies de forrageiras cultivadas no Brasil. Assim, as plantas forrageiras já partem em desvantagem competitiva com as plantas daninhas de folhas largas, prejudicando de forma capital a velocidade do estabelecimento da pastagem, sua produtividade e até sua longevidade ao longo dos anos. O pecuarista nem sempre dimensiona a magnitude desses prejuízos, sendo o objetivo deste texto discutir esses aspectos, e alertar sobre a importância do controle das plantas daninhas na formação das pastagens, salientando que esta seja feita de modo muito precoce em relação ao plantio, talvez muito mais cedo que o pecuarista possa imaginar.

Boas práticas culturais

O estabelecimento bem-sucedido da pastagem começa pela escolha do cultivar, ou da espécie de forrageira a ser cultivada na área, compatível com as condições edafoclimáticas locais, elegendo a planta mais bem adaptada ao clima, relevo, tipo de solo, fertilidade e possibilidade de encharcamento. Essa escolha é uma decisão estratégica, sem cultos envolvidos, e que contribui para o controle das plantas daninhas, tanto na implantação como na longeva exploração da pastagem, tendo em vista que um planta forrageira bem-posicionada e manejada em seu ambiente, tem maior poder competitivo com as plantas daninhas, que invariavelmente estarão presentes.

Outra prática cultural que não envolve custos, apenas escolhas, é o correto manejo da pastagem, considerando altura de entrada e saída dos animais na área, levando em conta o que cada espécie forrageira exige. Principalmente no caso de super pastejo, a touceira remanescente levará mais tempo para rebrotar, e surgirão manchas de solo descoberto entre as touceiras, permitindo assim que plantas daninhas apareçam e se desenvolvam nestas manchas de solo não sombreadas pelo capim.

E finalmente, como prática cultural que reflete na interface entre as plantas daninhas e as pastagens é o acompanhamento da fertilidade do solo, através da amostragem e análise química do solo, realizando a correção ou reposição dos níveis adequados de nutrientes exigidos pela espécie forrageira cultivada.

Sempre repito esta frase: o capim vigoroso e bem manejado é o melhor herbicida da pastagem.

Plantas daninhas e perdas de produtividade na implantação da pastagem

Os estudos científicos relativos às perdas de produtividade em pastagens decorrentes da competição com plantas daninhas não são muito numerosos nas nossas condições tropicais, mas as informações convergem para um período crítico de competição que se inicia muito precocemente, entre 7 e 14 dias, até 35 a 50 dias após a emergência das sementes da gramínea forrageira, um curto período de tempo em que é fundamental o controle das invasoras. É de se ressaltar que há reflexos importantes na produtividade da pastagem, caso uma intervenção nesse sentido não seja feita, como veremos na sequência.

A figura 1 mostra que, à medida que aumenta o tempo de competição com as plantas daninhas, a pastagem segue perdendo produtividade linearmente, chegando à redução de 48% de produção de forragem em uma pastagem que conviveu por 120 dias com as invasoras, quando comparada a uma que esteve livre de competição por esse período (SOUZA NETO et al., 2012). O termo PAI, no gráfico, refere-se a um Período Anterior à Interferência, caracterizando o tempo de convivência das plantas daninhas com a pastagem que não resultaria em perdas significativas de produtividade, nesse caso específico, inferior a 18 dias.

 

Figura 1 - Representação gráfica dos valores ajustados e da equação de regressão obtida com os dados referentes ao incremento médio quinzenal de massa seca total de Brachiaria brizantha (SOUZA NETO et al., 2012).

Em outro estudo de implantação de pastagem de Brachiaria brizantha, os autores identificaram, como Período Crítico de Prevenção da Interferência (PCPI), entre 9 e 26 dias após a emergência (JAKELAITIS et al., 2010), comparando-se áreas em diversos períodos de convivência com as plantas daninhas com áreas consideradas controle, mantidas no limpo (Figura 2). Em apenas 63 dias do estudo, puderam ser observadas perdas da ordem de 42% na produtividade em relação a área que permaneceu por esse período no limpo.

Figura 2 - Período anterior à interferência (PAI), período total de prevenção da interferência (PTPI) e período crítico de prevenção da interferência (PCPI), tolerando-se uma perda máxima de 5% no rendimento forrageiro de Brachiaria brizantha, durante a implantação da pastagem (JAKELAITIS et al., 2010).

Mais recentemente, também estudando Brachiaria brizantha, cv Marandu, esse mesmo time de pesquisadores determinou como PAI 8 DAE (dias após emergência) e o PCPI entre 8 e 34 DAE (Figura 3), mostrando perdas superiores a 40% onde não houve controle:

 Figura 3 - Produtividade relativa da forrageira Urochloa brizantha cv. Marandu em resposta aos períodos de convivência e de controle de plantas daninhas (PEREIRA et al., 2019).

Em uma renovação de capim Massai, Mota (2017) determinou em seu estudo o PAI de 10 dias após a emergência, quando as perdas seriam superiores a 5%, decorrentes da convivência com as plantas daninhas (Figura 4), mostrando também perdas da ordem de 35% na área onde houve convivência com as plantas daninhas por apenas 90 dias:

 Figura 4 - Período anterior à interferência (PAI) do capim Massai em convivência com plantas daninhas tolerando 5% de redução na densidade volumétrica de matéria seca (DVMS), em área de renovação de pastagem (MOTA, 2017). 

Como se pode observar, as informações apontam para a necessidade de um controle da infestação bastante precoce em relação à emergência das sementes da forrageira e, nos exemplos mencionados, observaram-se perdas entre 35 e 48%, salientando também que os períodos de estudo foram ainda bastante limitados, entre 60 e 120 dias de duração, no máximo, em ambientes de plantios novos da pastagem.

Entrada de animais no primeiro pastejo

Considerando o processo de formação da pastagem, a primeira entrada de animais para pastejo deve ser planejada com cuidado, sendo um detalhe que contribui para o bom desenvolvimento da forrageira, e por consequência, no vigor da planta para se sobrepor à competição com as plantas daninhas.

O ideal é que o pecuarista introduza animais leves para promover apenas um desponte superficial da área, quando o capim atingir de 75 a 80% da altura recomendada para cada espécie. Essa prática, utilizando animais leves apenas para desponte evita que as touceiras jovens sejam arrancadas, uma vez que ainda estão em seu processo de estabelecimento. Isso fará que certa insolação atinja a base da touceira, estimulando seu perfilhamento e fortalecendo seu sistema radicular.

É importante ressaltar que, nesse primeiro pastejo de desponte, não se pode considerar que a pastagem já esteja formada. Na verdade, essa ação realizada entre 60 e 80-90 dias, no máximo, faz parte do processo de estabelecimento do pasto. Passados 30 a 35 dias, pode-se então iniciar os ciclos de pastejo regulares, obedecendo criteriosamente as alturas das plantas na entrada e saída dos animais em função da espécie forrageira, ou seja, o manejo da pastagem propriamente dito.

O controle das plantas daninhas na implantação da pastagem

As plantas daninhas que surgem no processo de formação da pastagem são, na quase totalidade, como mencionado no início do texto, provenientes de sementes, sendo facilmente controladas por tratamentos herbicidas que demandam baixíssimo investimento. Estima-se que o valor destinado ao herbicida seja da ordem de 5% do custo da reforma, com um retorno que simplesmente pode definir o sucesso ou o fracasso da operação.

A principal modalidade de aplicação de herbicidas para o controle das plantas daninhas na formação da pastagem se dá em área total, através de pulverizadores tratorizados, aeronaves, e mais recentemente drones. No caso de áreas menores, de acesso mais limitado, ou menor nível tecnológico, o uso de pulverizadores costais também é possível, ressaltando seu menor rendimento operacional.

O pecuarista pode fazer uso de uma ampla gama de herbicidas disponíveis no mercado, dezenas deles com as mesmas composições e concentrações, outros mais exclusivos fornecidos por algumas empresas. O importante é que diversos canais e fabricantes oferecem produtos bastante seguros e efetivos para este fim.

As principais formulações recomendadas para o controle de folhas largas na formação da pastagem são compostas por Picloram + 2,4-D e Aminopiralide + 2,4-D. Em muitos casos pode-se adicionar outras moléculas, como: metsulfuron-metil, triclopir ou fluroxipir. Mais recentemente surgiu uma nova molécula, o aminociclopiraclor, que em mistura com o metsulfuron-metil, representa mais uma ferramenta disponível para o setor.

É bastante comum o uso de misturas de produtos para complementar ação de controle sobre alguma espécie invasora específica presenta na área, mas estas misturas precisam partir de recomendações de técnicos que conheçam o perfil de cada produto, ou molécula, e dominem o desafio proposto para cada área, com o adequado levantamento da infestação, identificando as plantas daninhas presentes, o nível de infestação que cada espécie representa, a espécie de forrageira cultivada, a época do ano e o estádio de desenvolvimento que as plantas se encontram, tanto invasoras como da forrageira.

Conclusão

A implantação de uma pastagem é um investimento considerável na propriedade e um bom começo é essencial para uma plantação considerada perene. Alguns erros básicos podem tornar esse perene em uma plantação de apenas poucos anos. Numa pecuária cada vez mais profissional e competitiva, não há espaço para que isso ocorra.

Estes temas podem ser mais profundamente entendidos em nossa publicação “Plantas daninhas em pastagens: biologia, manejo e controle”, aqui disponível:

https://pastofert.com/produtos/plantas-daninhas-em-pastagens-biologia-manejo-e-controle/

Elaboração conteúdo técnico:

Neivaldo Tunes Caceres

 

Referências Bibiográficas

CACERES, N. T. Plantas daninhas em pastagens: biologia, manejo e controle. Capivari-SP, Ed Nova Consciência. 2021. 252 p.

JAKELAITIS, A.; GIL, J. O., SIMÕES, L. P.; SOUZA, K., V.; LUDTKE, J. - Efeitos da interferência de plantas daninhas na implantação de pastagem de Brachiaria brizantha. Revista Caatinga 23(1), 2010.

MOTA, R. V. Produtividade do capim Massai sob interferência de plantas daninhas em área de renovação. Dissertação Mestrado, UFG. Jataí, 2017.

PEREIRA, L. S.; JAKELAITIS, A.; OLIVEIRA, G. S.; SOUSA, G. D.; SILVA, J. N.;3, COSTA, E. M. Interferência de plantas daninhas em pastagem de Urochloa brizantha cv. Marandu. Cultura Agronômica, Ilha Solteira, v.28, n.1, p.29-41, 2019.

SOUZA NETO, J.; MARCHI, S. R.; OLIVEIRA, D. A; CÁCERES, N. T. Produção de matéria seca de capim-braquiarão em função de períodos de convivência com casadinha - XXVIII CBCPD Anais – Campo Grande/MS, 2012.